Quase 17 anos depois da morte de Michael Jackson, em junho de 2009, é difícil pensar em algum artista pop que tenha exercido influência comparável sobre a dança mundial. O moonwalk virou o passo mais conhecido do planeta. A coreografia de “Thriller” entra em flash mobs até hoje. Jovens dançarinos de K-pop crescem assistindo a “Smooth Criminal” no YouTube. E ainda assim a maior parte das pessoas conhece pouco do trabalho real que sustentou cada um desses momentos.
Esta matéria não é sobre a controvérsia em torno do artista, é sobre o que ele fez na pista. E o que ele fez foi reorganizar a forma como o mundo entende dança em performance pop.
O moonwalk não foi invenção dele (e ele sabia disso)
Comecemos pelo movimento mais associado a Michael Jackson, o moonwalk. A versão honesta da história, contada pelo próprio Michael em sua autobiografia Moonwalk (1988), é que ele não inventou o passo. Aprendeu com dançarinos da cena dance e funk dos anos 70 e 80, em particular com Jeffrey Daniel, do grupo Shalamar.
Jeffrey Daniel já fazia o que então se chamava de “backslide” em apresentações públicas pelo menos desde 1974, em episódios do programa Soul Train. Em 1982, ele executou o passo numa apresentação do Shalamar no programa britânico Top of the Pops. James Brown também tinha versões do movimento décadas antes. O moonwalk, segundo a própria família de Michael, era um passo que crianças negras faziam nas esquinas das periferias americanas, dentro da cultura popping do hip hop dos anos 70.
O que Michael fez foi outra coisa. Ele pediu aulas particulares com dois dançarinos do Soul Train, Geron “Caszper” Canidate e Derek “Cooly” Jackson, em junho de 1981. Praticou por anos. E em 25 de março de 1983, durante a gravação do especial Motown 25: Yesterday, Today, Forever, executou o passo no palco no momento certo da música certa, “Billie Jean”. A apresentação foi ao ar em 16 de maio de 1983 e mudou a história da dança pop.
A duração real do primeiro moonwalk de Michael em rede nacional? Aproximadamente dois segundos e meio. Foi o suficiente.

“Thriller”: a coreografia que virou lei
Em 1983 também saiu o videoclipe de “Thriller”, dirigido por John Landis e com coreografia de Michael Peters. O clipe tem quase 14 minutos e custou US$ 500 mil, um orçamento absurdo para a época. A coreografia da cena dos zumbis tornou-se a coreografia mais reproduzida da história da dança pop.
O que Michael Peters fez ali foi quebrar uma fronteira. Antes de “Thriller”, videoclipe era basicamente o artista cantando para a câmera com cortes rápidos. Depois de “Thriller”, videoclipe virou peça audiovisual completa, com narrativa, figurino, coreografia ensaiada e produção de cinema. A indústria toda mudou de patamar. MTV ganhou um novo formato de produto. Artistas pop passaram a precisar de coreógrafo no time.
O passo dos zumbis aparece em escolas de dança, festas de casamento, flash mobs e na cerimônia de despedida de Michael em 2009. É uma das poucas coreografias do século XX que qualquer dançarino consegue identificar pela silhueta dos braços.

O passo da gravidade desafiada
Em 1987 saiu “Smooth Criminal”, com videoclipe inserido no filme Moonwalker. O destaque era o “anti-gravity lean”, um movimento em que Michael e os dançarinos inclinam o corpo 45 graus à frente, com os pés totalmente apoiados no chão e a coluna reta. É fisicamente impossível para um ser humano executar isso. A maior parte dos dançarinos com bom condicionamento atinge no máximo 25 a 30 graus.
A coreografia foi assinada por Vincent Paterson e Jeffrey Daniel (o mesmo do moonwalk), em colaboração com Michael. No clipe, o efeito foi feito com cabos e arnês, técnica padrão de cinema. O problema era reproduzir o passo ao vivo nas turnês, onde cabos ficam visíveis e atrapalham a movimentação dos dançarinos.
Michael resolveu o problema patenteando uma invenção. Em 1992, junto com os figurinistas Michael Bush e Dennis Tompkins, ele depositou a patente US 5.255.452, “Method and Means for Creating Anti-Gravity Illusion”. A invenção descreve um sapato com fenda no salto que se encaixa em um pino metálico embutido no piso do palco. O dançarino se inclina, o sapato segura, e o efeito acontece sem cabo nenhum.
A patente foi concedida em 26 de outubro de 1993. Michael Jackson é um dos poucos artistas da história a ter patente registrada em seu nome.
Uma equipe de neurocirurgiões indianos publicou em 2018 no Journal of Neurosurgery: Spine um estudo analisando o lean. A conclusão deles foi que mesmo com o sapato e a fenda, o passo ainda exige força extraordinária da musculatura espinhal e dos membros inferiores. Os médicos chegaram a alertar contra tentativas de reprodução por dançarinos amadores, pelo risco de lesão.

A influência que ninguém escapa
A pegada de Michael Jackson na dança contemporânea aparece em lugares que parecem distantes. K-pop, com suas coreografias sincronizadas e ensaiadas até o último detalhe, é diretamente herdeiro do modelo Michael Jackson de performance. BTS, BLACKPINK, NewJeans e outras estrelas coreanas treinam usando vídeos de Michael como referência básica de musicalidade e presença de palco.
No hip hop e no funk americano, a influência é igualmente forte. Usher, Chris Brown, Bruno Mars e The Weeknd construíram apresentações que dialogam diretamente com o vocabulário coreográfico de Michael. Beyoncé, em particular, fez questão de citá-lo várias vezes como sua maior referência de palco.
No Brasil, dançarinos de funk paulistano, hip hop e dança urbana têm Michael como ponto de partida. Mesmo estilos sociais como o samba rock e o zouk, que não têm relação direta com a estética michaeliana, foram afetados pela ideia de que dançar bem é dançar com técnica, musicalidade e presença, três pilares que ele consolidou.
Por que ele ainda importa
Michael Jackson nasceu em 29 de agosto de 1958 e morreu em 25 de junho de 2009. Em pouco mais de 30 anos de carreira solo, ele estabeleceu o padrão moderno do que uma performance pop com dança deve ser. Não inventou o moonwalk, mas tornou o moonwalk visível para o mundo. Não criou a ideia de videoclipe coreografado, mas elevou a régua de produção a um patamar que ninguém alcançou antes.
Mais importante: ele provou que dança não é acessório de música pop, é parte central da identidade do artista. Esse princípio organiza a indústria há quatro décadas e segue valendo, da carreira do Justin Timberlake aos ensaios da nova geração de K-pop.
Para quem quer entender a dança pop contemporânea, assistir aos clipes de Michael Jackson é uma ótima tarefa!
Se você quer começar a estudar dança e ainda não sabe por onde, dá uma olhada no nosso guia de 7 estilos de dança pra começar do zero em 2026 e nos erros mais comuns de quem está chegando agora na primeira aula.
FONTES CONSULTADAS
- AOL Entertainment, “Michael Jackson’s Iconic Moonwalk Debut on Motown 25”, 06/03/2026
- BBC News, “Doctors explain Michael Jackson’s impossible dance move”, baseado em estudo do Journal of Neurosurgery: Spine, 2018
- Yahoo Entertainment, “Who invented the moonwalk? Hint: It wasn’t Michael Jackson”, 16/05/2018
- Aventuras na História, “No dia Mundial da Dança, entenda a origem do Moonwalk de Michael Jackson”, 29/04/2021
- The Shadow League, “Michael Jackson’s Smooth Criminal Lean Was Made Possible By A Patent”, 23/05/2018
- Patente US 5.255.452, “Method and Means for Creating Anti-Gravity Illusion”, concedida em 26/10/1993
- MJJ Justice Project, entrevista com Vincent Paterson sobre o trabalho em “Smooth Criminal”
- Wikipedia, “Moonwalk (dance)”, verificado em 28/05/2026