Há pouco mais de um ano e meio, em novembro de 2024, uma deputada de 22 anos chamada Hana-Rāwhiti Maipi-Clarke se levantou no parlamento da Nova Zelândia, rasgou uma cópia de um projeto de lei e começou a dançar. Outros parlamentares se juntaram. A sessão foi suspensa. O vídeo deu a volta ao mundo.
Em junho de 2026, a busca por “dança maori” subiu 200% no Google no Brasil. O motivo é simples. A história de Maipi-Clarke segue sendo referenciada toda vez que alguém precisa ilustrar o que dança pode fazer fora de um palco.
Quem é a parlamentar mais jovem da Nova Zelândia
Maipi-Clarke entrou no parlamento aos 21 anos pelo Te Pāti Māori (Partido Maori), em 2023. Foi a parlamentar mais jovem da Nova Zelândia em 170 anos. Cresceu falando maori em casa, em uma região rural da Ilha Norte do país, onde a cultura ancestral é parte do cotidiano.
O projeto de lei contra o qual ela protestou, o “Treaty Principles Bill”, propunha reinterpretar o Tratado de Waitangi, documento de 1840 que regulamenta direitos dos maori sobre terras, recursos naturais e igualdade legal. Críticos viam a proposta como ameaça aos direitos da minoria indígena, que representa cerca de 20% da população do país.
O ato
No dia da primeira leitura, Maipi-Clarke pediu a palavra, rasgou a cópia da proposta na frente das câmeras e começou a entoar o haka “Ka Mate”, o mesmo executado pelos All Blacks. Parlamentares do Te Pāti Māori se levantaram e se juntaram à dança. Pessoas na galeria também entraram. O presidente da Câmara, Gerry Brownlee, suspendeu a sessão.
O projeto acabou aprovado em primeira leitura, mas foi enviado a uma comissão para audiência pública de seis meses. A maioria dos analistas avaliou que dificilmente passaria em segunda votação. E não passou.
O preço do gesto
Em maio de 2025, um comitê parlamentar recomendou suspensão temporária de três deputados maoris, incluindo Maipi-Clarke, pelo episódio. A Comissão de Privilégios, presidida pela ministra Judith Collins, classificou o ato como “comportamento extremamente desordeiro”. O Partido Maori se recusou a comparecer ao comitê e respondeu por escrito que era apropriado “levantar-se e fazer haka para expressar raiva e oposição a um assunto abusivo e degradante”.
A punição foi aplicada em junho de 2025. Os três parlamentares foram suspensos por 21 dias (Maipi-Clarke), 21 dias (Rawiri Waititi) e 7 dias (Debbie Ngarewa-Packer). Foi a suspensão mais longa da história do parlamento neozelandês.
A nova dimensão do haka
Para o povo maori, o haka nunca foi só dança de guerra. É usado em casamentos, funerais, formaturas, recepções diplomáticas. O que Maipi-Clarke fez foi reativar uma função histórica do haka que estava esquecida fora dos contextos cerimoniais. A dança como ferramenta política, instrumento de afirmação cultural e voz em ambientes onde a palavra falada não basta.
A imagem de Maipi-Clarke segurando o papel rasgado e iniciando o canto entrou para a história. Em 2026, segue sendo referência em qualquer discussão sobre protesto, arte e identidade indígena. O vídeo segue rodando no TikTok, Instagram e YouTube, com mais de 50 milhões de visualizações somadas.
FONTES
- CNN Brasil, “Deputados maoris da Nova Zelândia fazem protesto ‘haka’ em parlamento”, novembro de 2024
- Jornal de Brasília, “Nova Zelândia pede punição para deputada que viralizou ao realizar haka”, maio de 2025
- The Guardian, cobertura do protesto e da suspensão dos parlamentares
- Te Pāti Māori, declarações públicas