Início Revista Busca Dança Artigo
Saúde & Bem-estar

Como a dança ajuda a tratar depressão e ansiedade, segundo a ciência

Dança ajuda a tratar depressão e ansiedade: pessoas em aula de dança de salão
Compartilhar:

Anúncios

Se você convive com depressão, ansiedade ou conhece alguém que convive, esta pergunta provavelmente já passou pela sua cabeça: a dança pode ajudar de verdade no tratamento, ou é só papo bonito?

A resposta curta: sim, a dança pode ajudar, e existem estudos sérios mostrando isso. Não é cura mágica, não substitui psicoterapia ou medicação quando necessárias, mas funciona como uma das ferramentas complementares mais eficazes que a ciência identificou nos últimos anos.

Este artigo explica o que os estudos mostram, como a dança age no corpo e na mente, e como dar o primeiro passo de forma realista.

O que a ciência diz sobre dança e depressão

Imagem conceitual de cérebro com neurotransmissores ou ilustração simples sobre efeito do exercício na saúde mental

Em fevereiro de 2024, a revista científica BMJ (British Medical Journal), uma das mais respeitadas do mundo na área médica, publicou uma revisão sistemática e meta-análise sobre o efeito de diferentes formas de exercício no tratamento da depressão. O estudo, conduzido pelo pesquisador Michael Noetel e equipe, analisou 218 ensaios clínicos randomizados, envolvendo 14.170 participantes diagnosticados com depressão.

Entre as modalidades testadas (caminhada, corrida, ioga, musculação, exercícios aeróbicos, tai chi, qi gong e dança), a dança apresentou o maior efeito na redução de sintomas depressivos quando comparada a tratamentos controle. Caminhada, corrida, ioga e musculação também tiveram efeitos importantes.

É importante uma ressalva honesta: o próprio estudo do BMJ classificou a confiança nos resultados sobre dança como baixa, porque o número de estudos disponíveis com essa modalidade ainda é pequeno comparado a outras formas de exercício. Ou seja, o tamanho do efeito chamou atenção, mas precisa de mais pesquisas para confirmação definitiva. Mesmo assim, o resultado é consistente com vários outros estudos menores que vêm sendo publicados desde os anos 2000.

Em fevereiro de 2024, o BMJ ainda publicou uma errata para corrigir um cálculo do estudo original, mas a conclusão sobre os benefícios do exercício (incluindo a dança) para depressão se manteve.

E na ansiedade?

Para ansiedade, os estudos são mais numerosos e a confiança científica é maior. Uma pesquisa publicada em 2024 na Revista Multidisciplinar do Nordeste Mineiro avaliou universitárias da cidade de Juazeiro do Norte (CE) usando a Escala de Ansiedade, Depressão e Estresse (EADS-21). Os resultados mostraram que as participantes que praticavam dança apresentaram níveis significativamente mais baixos de estresse, depressão e ansiedade comparadas às sedentárias.

Outra pesquisa, publicada na Revista Interinstitucional Artes de Educar (UERJ) em 2021, avaliou 12 semanas de prática de contato improvisação (uma modalidade de dança contemporânea) em universitários com sintomas de ansiedade e depressão. Os participantes mostraram melhora tanto em dados quantitativos (questionários BAI e BDI, padrão internacional para avaliar sintomas) quanto em relatos qualitativos sobre bem-estar.

A pesquisadora Maria Cristina Lopes, em revisão sobre dança e saúde mental, resume bem: depois de sessões regulares de dança, os participantes relatam “redução de sentimentos de depressão, ansiedade e hostilidade”, e isso pode ser comprovado pela mudança na concentração de hormônios de estresse no corpo, como o cortisol, e aumento de serotonina e beta-endorfinas.

Por que a dança funciona nesses casos

Benefícios sociais da dança para depressão e ansiedade

A dança ataca os mecanismos da depressão e da ansiedade por várias frentes ao mesmo tempo. Não é um único efeito que faz a diferença, é a soma deles.

Liberação de neurotransmissores ligados ao bem-estar. Quando você dança, o corpo libera endorfina, serotonina e dopamina. Esses são exatamente os neurotransmissores que medicações antidepressivas tentam regular. Não significa que a dança substitui o remédio, mas pode complementar o tratamento de quem está em acompanhamento.

Redução do cortisol. O cortisol é o hormônio do estresse, e níveis cronicamente altos estão associados tanto à depressão quanto à ansiedade. A atividade física regular, e a dança em particular pelo componente lúdico, ajuda a regular esses níveis.

Conexão social real. A depressão se alimenta de isolamento. A ansiedade se alimenta de pensamentos repetitivos sem saída. Ir a uma aula de dança ou um baile coloca a pessoa em contato com outras pessoas de forma estruturada, sem precisar do esforço de “puxar assunto”. A música, o passo e o par já dão o contexto.

Foco no momento presente. Para dançar, você precisa estar atento à música, ao tempo, ao corpo e ao parceiro ao mesmo tempo. Isso ocupa a mente de forma similar ao que o mindfulness faz. Não dá para ruminar sobre problemas enquanto você tenta acertar o tempo do xote.

Sensação de competência e progresso. Aprender um passo novo, conseguir um giro que antes não saía, perceber o corpo respondendo melhor à música: esses pequenos progressos geram sensação de competência, que é exatamente o oposto da sensação de inutilidade que a depressão produz.

Dança não substitui tratamento médico

Esse ponto precisa ficar claro. Para quem está com diagnóstico de depressão ou transtorno de ansiedade, a primeira recomendação continua sendo procurar um profissional: psiquiatra, psicólogo, ou ambos. A dança é uma ferramenta complementar, não uma substituta da psicoterapia ou da medicação quando essas são indicadas.

Quem suspende remédio por conta própria achando que “vai dançar e melhorar” corre risco real de piora. A pesquisadora Maria Cristina Lopes coloca isso com clareza: a dança tem se mostrado “uma terapia complementar eficaz para o tratamento da depressão, aliada à psicoterapia, medicação, e outras formas de intervenção”. O aliada é a palavra-chave.

Para casos mais leves, sintomas iniciais ou prevenção, a dança sozinha pode fazer diferença significativa. Para casos moderados a graves, é parte de um plano maior, sempre conduzido com acompanhamento profissional.

Qual estilo de dança escolher

A boa notícia é que o efeito positivo aparece em vários estilos. O importante é a regularidade da prática e o ambiente onde ela acontece.

Para quem busca componente social forte: forró, samba de gafieira, zouk, bachata e salsa. Esses estilos têm cena ativa em todo o Brasil, bailes frequentes e comunidade acolhedora para iniciantes. O contato físico do abraço da dança a dois também tem efeito específico sobre ansiedade, porque libera oxitocina.

Para quem prefere começar sem par: Fitdance, dança contemporânea, jazz, dança de salão em grupo. Estilos com aulas em grupo onde você não precisa convidar ninguém para dançar.

Para quem busca expressão emocional: dança contemporânea e dançaterapia. São estilos com foco maior na expressão corporal das emoções, com profissionais frequentemente formados em integração arte-terapia.

O essencial: comece por um estilo que dê vontade de voltar. A frequência é mais importante do que a modalidade. Uma aula por semana mantida durante seis meses tem muito mais efeito do que três meses de aula diária seguidos de abandono.

Como começar de forma realista

Como começar a dançar para tratar ansiedade

Para quem está com sintomas de depressão ou ansiedade, sair de casa para uma aula de dança pode parecer impossível. Algumas dicas para diminuir o atrito:

Comece com algo perto. Se a escola fica a 30 minutos de transporte, a chance de abandonar é maior. Procure aulas no bairro ou ao lado do trabalho.

Vá uma vez. Não se comprometa com pacote longo na primeira tentativa. Vá numa aula avulsa, sinta o ambiente, veja se faz sentido. Se gostar, fecha o pacote depois.

Comunique se for o caso. Para muita gente, comunicar ao professor que está num momento difícil ajuda. Bons professores sabem acolher iniciantes em qualquer condição. Você não precisa entrar em detalhes, basta dizer “estou começando agora, vai com calma comigo”.

Espere ciclos. Os primeiros 15 a 20 dias podem parecer pesados. Seu corpo está se adaptando, sua cabeça está resistindo. A partir da terceira ou quarta semana, a maioria das pessoas começa a sentir mudança real no humor. Não desista antes disso.

Combine com tratamento. Se você já faz terapia ou usa medicação, conte para seu profissional que vai começar a dançar. Pode ser informação útil no acompanhamento.

Vale a pena tentar?

Vale, com expectativa realista. A dança não vai resolver tudo, mas pode ser uma das melhores ferramentas complementares que existem para quem convive com depressão e ansiedade. Ela mexe com corpo, mente e vida social ao mesmo tempo, e os estudos mais recentes mostram efeitos consistentes nesses três planos.

Mais do que isso, é uma atividade que tem chance real de ser mantida no longo prazo, porque tem prazer embutido. E o exercício que você mantém é, no fim, o que faz diferença.

Use o buscador do Busca Dança para encontrar aulas e escolas na sua cidade, filtradas por estilo, bairro e dia da semana. E se está em dúvida sobre por onde começar, veja nosso guia sobre Dançar emagrece? Veja quantas calorias você queima trocando a esteira pelo baile.

Você já usou a dança para lidar com depressão ou ansiedade? Conta sua experiência nos comentários, sem entrar em detalhes que não queira compartilhar.


Aviso: Este artigo tem caráter informativo e não substitui orientação médica. Em caso de sintomas de depressão ou ansiedade, procure um psiquiatra ou psicólogo. Se você ou alguém próximo está em crise, o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende pelo telefone 188, 24 horas por dia, gratuitamente.


Fontes consultadas

  • Noetel M, Sanders T, Gallardo-Gómez D, et al. Effect of exercise for depression: systematic review and network meta-analysis of randomised controlled trials. BMJ, 2024;384:e075847. DOI: 10.1136/bmj-2023-075847. Disponível em: bmj.com/content/384/bmj-2023-075847
  • Romarco EKS, et al. Impacto de uma abordagem de dança sobre a ansiedade, estresse e depressão em universitários. Revista Interinstitucional Artes de Educar (UERJ), 2021.
  • Associação entre a prática de dança e os níveis de ansiedade e estresse em jovens universitários. Revista Multidisciplinar do Nordeste Mineiro, 2024.
  • Lopes, M. C. A dança como terapia no tratamento da depressão. mariacristinalopes.com
  • Lopes, M. C. Saiba como a dança pode ajudar a prevenir e combater a ansiedade. mariacristinalopes.com
  • As contribuições da dança no tratamento de pessoas com depressão. Anais do COMCISA, UNIPAM.
  • Depressão, ansiedade e cinesiofobia em mulheres com fibromialgia praticantes de dança. Revista BrJP (Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor), SciELO.

Comentários

Para realizar comentários, realize seu login.
{{ reviewsTotal }}{{ options.labels.singularReviewCountLabel }}
{{ reviewsTotal }}{{ options.labels.pluralReviewCountLabel }}
{{ options.labels.newReviewButton }}
{{ userData.canReview.message }}

Gostou? Compartilhe e ajude mais pessoas a encontrarem a dança!

Às vezes, tudo o que alguém precisa é de um empurrão pra começar

WhatsApp
Facebook
X
Telegram
Threads

Anúncios

Busca Dança
E-mail
Digite seu e-mail
Senha
Digite sua senha

Obrigado por se candidatar!

Em breve entraremos em contato.